A vereadora Samantha do Abilio (PL) parece recorrer a uma memória política conveniente. Antes de tentar diminuir adversários, deveria lembrar que sua própria estreia eleitoral ocorreu sob o nome “Samantha do Abilio”, numa estratégia que vinculou diretamente sua candidatura à popularidade do marido
Também não pode apagar o resultado de 2020. Ele foi derrotado no segundo por Emanuel Pinheiro, que conquistou a reeleição com 51,15% dos votos válidos, contra 48,85% do Abilio. Emanuel, portanto, venceu Abilio e permaneceu no comando da Prefeitura por dois mandatos.
Quatro anos depois, Abilio conseguiu se eleger prefeito ao derrotar Lúdio Cabral com 53,80% dos votos válidos. Mas a vitória de 2024 não representa um cheque em branco para uma futura reeleição. Naquela ocasião, Abilio era o candidato de oposição. Em uma nova disputa, terá que defender os resultados da própria administração.
E os sinais de desgaste já aparecem. A gestão sofreu uma derrota política significativa com a rejeição da LDO de 2027. O projeto recebeu apenas 12 votos favoráveis, oito contrários e sete abstenções, quando precisava de pelo menos 14 votos. O episódio expôs o racha da base governista, e Abilio ainda reagiu chamando parte dos vereadores de despreparada.
A interferência na disputa pelo comando da Câmara também ampliou a crise. Em meio às articulações pela Mesa Diretora, Abilio colocou a própria esposa como líder do Governo no Legislativo. Samantha passou a representar oficialmente a administração do marido justamente no momento em que a base começava a se dividir, reforçando a imagem de um projeto político concentrado no casal.
No funcionalismo, também existem motivos concretos de insatisfação. Agentes comunitários de saúde e de combate a endemias chegaram a protestar contra a revisão do adicional de insalubridade. Além disso, a Prefeitura concedeu aos profissionais da Educação um índice de revisão salarial inferior ao aplicado aos demais servidores.
Na Saúde, a administração publicou o cancelamento das férias de oito servidores, entre técnicas de enfermagem, enfermeira, agente de saúde, cirurgiã-dentista e servidora administrativa. Outros dois períodos foram remarcados ou interrompidos. As portarias não apresentam uma justificativa específica para a sequência de cancelamentos.
A Educação, por sua vez, tornou-se foco de denúncias e pedidos de CPI envolvendo suspeitas relacionadas a contratos e valores que poderiam chegar a R$ 80 milhões. As suspeitas ainda precisam ser apuradas, e Abilio afirma que a própria gestão encaminhou o caso ao Tribunal de Contas e ao Ministério Público. Mesmo assim, o episódio produz desgaste político e coloca sob questionamento uma das áreas mais importantes da Prefeitura.
Até os problemas de infraestrutura chegaram a ser reconhecidos pelo prefeito. Após acidentes envolvendo uma tampa de bueiro e o vão entre duas pontes, Abilio admitiu falhas de manutenção e afirmou que vários pontos da cidade ainda necessitavam de reparos urgentes. A herança deixada pela administração anterior pode explicar parte dos problemas, mas, depois de assumir o Palácio Alencastro, a responsabilidade por apresentar soluções passou a ser dele.