O prefeito de Cuiabá, Abilio Brunini (PL) misturou religião e política neste sábado (20), durante a Marcha para Jesus, realizada em Cuiabá com a presença do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) que disputa a Presidência da República. Em um evento que deveria ser marcado pela fé, oração e adoração, o chefe do Executivo transformou parte do discurso em palanque ideológico, ao defender que a “chave da cidade” e também a “chave do país” sejam entregues a Cristo.
A fala chama atenção pela contradição. Há poucos dias, Abilio causou polêmica ao afirmar que pessoas de esquerda poderiam “ir para a Venezuela”, durante a abertura da FIT Pantanal. Na prática, o prefeito mandou embora da cidade moradores que também vivem em Cuiabá, trabalham, pagam impostos e têm o mesmo direito de ocupar os espaços públicos, independentemente de posição política.
Neste sábado, porém, o discurso foi outro. Diante de milhares de fiéis, Abilio falou em Deus, salvação da nação, oração e obediência à palavra bíblica. Disse que “não é o Abilio, não é o Flávio, não é ninguém” que pode salvar o país, mas “só o Senhor nosso Deus”. O problema é que a Bíblia usada no palanque pelo prefeito prega justamente o contrário da exclusão política: fala em amar o próximo, respeitar o outro, promover a paz e acolher, não expulsar.
A Marcha para Jesus, reconhecida recentemente como patrimônio cultural material e imaterial de Cuiabá, deveria ser um momento de celebração religiosa e integração comunitária. No entanto, a presença de figuras políticas nacionais e o tom adotado por lideranças do PL evidenciaram a tentativa de transformar fé em instrumento de mobilização eleitoral.
Ao dizer que a chave da cidade não é entregue ao Rei Momo, mas a Cristo, Abilio reforçou uma narrativa que usa símbolos religiosos para marcar posição política. A fala pode agradar a uma parcela do eleitorado, mas também levanta debate sobre o limite entre fé pessoal, gestão pública e uso de eventos religiosos como vitrine partidária.
Cuiabá é uma cidade plural. Tem evangélicos, católicos, espíritas, pessoas de religiões de matriz africana, pessoas sem religião, eleitores de direita, de esquerda e de centro. Um prefeito governa para todos, não apenas para quem pensa como ele ou frequenta o mesmo campo político-religioso.
O episódio expõe uma incoerência difícil de ignorar: o mesmo gestor que manda adversários ideológicos deixarem a cidade sobe em um palco religioso para falar de amor, fé e salvação. A política pode até buscar inspiração em valores cristãos, mas quando usa a religião para dividir, atacar ou excluir, deixa de ser testemunho de fé e passa a ser apenas palanque com linguagem de culto.