O prefeito de Cuiabá, Abilio Brunini (PL), tentou se antecipar ao desgaste político provocado pelo reajuste de 11,93% na tarifa de água e esgoto e afirmou ser contra o aumento. O discurso, no entanto, esbarra em uma contradição incômoda: a autorização para aplicação do reajuste passa justamente pela Cuiabá Regula, autarquia criada na atual gestão municipal.
Na prática, Abilio tenta se colocar publicamente ao lado da população, dizendo que não aceita o aumento, ao mesmo tempo em que a estrutura reguladora do próprio município dá andamento ao reajuste que vai pesar no bolso dos cuiabanos. A gestão afirma que a cobrança decorre de uma sentença arbitral relacionada a decisões tomadas em administrações anteriores, especialmente no período do ex-prefeito Emanuel Pinheiro.
A justificativa, porém, não elimina a responsabilidade política da atual administração. Se o prefeito diz ser contra o aumento, a população espera uma ação concreta da gestão para impedir a cobrança, e não apenas uma nota tentando transferir a culpa para governos passados. O reajuste pode até ter origem em uma disputa antiga, mas será sentido agora, durante o mandato de Abilio.
Segundo a Prefeitura, a decisão arbitral reconheceu o direito da concessionária Águas Cuiabá ao reequilíbrio econômico-financeiro do contrato e determinou que a recomposição ocorra por meio de aumento tarifário de 11,93%. A Procuradoria-Geral do Município informou que o percentual já foi consolidado na esfera arbitral, embora ainda existam processos judiciais em andamento que discutem o contrato de concessão.
A gestão também sustenta que continuará buscando alternativas jurídicas para tentar impedir ou reduzir o impacto do reajuste. O argumento, no entanto, soa como uma tentativa de blindagem política diante de uma medida impopular. Abilio se apresenta como contrário ao aumento, mas a autorização ocorre dentro da estrutura administrativa municipal sob sua responsabilidade.
Mesmo assim, o desgaste recai sobre a atual gestão. Para o consumidor, pouco importa se o problema nasceu em 2013, 2019 ou 2022. O que chega agora é uma conta mais cara. E, nesse caso, o prefeito que prometeu defender a população terá que explicar por que a cidade regula, autoriza e cobra, enquanto ele apenas diz ser contra.