O prefeito de Cuiabá, Abilio Brunini (PL), voltou a falar sobre o uso de Mounjaro e orientou a população a não tomar o medicamento sem prescrição e acompanhamento médico. A recomendação está correta. O problema é que o alerta vem do mesmo prefeito que prometeu oferecer tratamento contra obesidade pelo programa Cuiabá Mais Leve, com distribuição do medicamento à população, mas até agora segue sem entregar a promessa feita desde o início da gestão.
Em vídeo ao lado do médico Samuel, Abilio aparece falando sobre alimentação durante os jogos da Copa do Mundo e sobre a necessidade de manter o acompanhamento durante o tratamento. O prefeito também citou que muitas pessoas estão usando medicamento por conta própria e orientou que, caso não tenham médico de confiança, busquem apoio em uma unidade básica de saúde.
“Tem muita gente tomando medicamento de forma por conta, autônoma, então eu quero dizer pra você o seguinte, se você não puder ir no médico de sua confiança, às vezes alguém que possa te ajudar, no caso, eu vou aqui no Dr. Samuel, também vá numa unidade básica de saúde, alguma unidade de saúde mais perto de você, buscar um aconselhamento, um apoio, às vezes até mesmo solicitar uma série de exames para que você não fique tomando um medicamento sem um acompanhamento médico”, afirmou.
O discurso de cuidado, no entanto, expõe uma contradição política. Abilio fala como paciente acompanhado por médico, recomenda prudência e cobra orientação profissional, mas a população que acreditou na promessa do Cuiabá Mais Leve ainda espera o programa sair do papel de forma efetiva.
A Prefeitura já havia anunciado o programa como uma iniciativa pioneira de combate à obesidade, com promessa de acompanhamento médico, nutricional, atividades físicas e fornecimento gratuito do Mounjaro. A proposta chegou a ser vendida como uma política pública de impacto, especialmente para pessoas que não têm condições de pagar por um tratamento de alto custo.
Desde então, o programa acumulou adiamentos, justificativas técnicas e novas promessas. Primeiro, a previsão era lançar a iniciativa em outubro. Depois, a gestão passou a falar em mais estudos, protocolos, rede de apoio e segurança para os pacientes. Em janeiro, Abilio afirmou que o projeto deveria ser concluído até março de 2026. Passado o prazo, a promessa continuou sem data clara para chegar à população.
O prefeito tem razão ao dizer que ninguém deve tomar Mounjaro por conta própria. O medicamento exige avaliação, exames e acompanhamento. Mas essa mesma responsabilidade deveria servir para a gestão municipal apresentar um cronograma real, transparente e viável do programa que prometeu. Não basta usar as redes sociais para orientar o povo enquanto a política pública anunciada continua indefinida.
Na prática, Abilio transformou o Mounjaro em vitrine política, mas agora tenta se proteger atrás do discurso técnico. Se era tão complexo, por que prometeu antes de ter protocolo pronto? Se dependia de estrutura, por que anunciou como se estivesse perto de acontecer? E se a população precisa de acompanhamento, por que o programa prometido ainda não garante esse acesso de forma organizada?
A cobrança não é para liberar remédio sem controle. É justamente o contrário. A cobrança é para que o prefeito pare de tratar o tema como peça de marketing e explique quando, como e para quem o Cuiabá Mais Leve será entregue. Porque, enquanto Abilio faz seu tratamento com médico ao lado, o povo segue esperando o tratamento que ele prometeu.