O prefeito de Cuiabá, Abílio Brunini, anunciou publicamente que pretende se licenciar do cargo durante o período eleitoral de 2026 para acompanhar a campanha de sua esposa, a vereadora Samantha Iris, pré-candidata a deputada estadual. A declaração, feita em entrevista, oficializa um movimento que escancara a prioridade do projeto político-familiar sobre a gestão da capital: o prefeito admite que deixará o comando da cidade para se dedicar à eleição da esposa.
A decisão ocorre em meio a um cenário de abandono urbano generalizado. Ruas esburacadas, praças sem manutenção, matagal tomando conta de bairros, iluminação pública precária e ausência de obras estruturantes marcam a rotina da população. Mesmo diante desse quadro, Abílio Brunini confirma que se afastará do cargo, transferindo a administração do município para a vice-prefeita Vânia Rosa e, em um cenário eventual, para a presidente da Câmara Municipal, Paula Calil.
Além do afastamento anunciado, a atual gestão também se caracteriza por medidas que ampliaram o peso do Estado sobre o cidadão, em contradição direta com o discurso liberal adotado por Abílio na campanha. O prefeito promoveu o aumento do IPTU, criou a taxa de lixo, elevou o ISSQN no Distrito Industrial e transferiu responsabilidades históricas do poder público para comerciantes e lojistas, inclusive em relação a problemas crônicos de alagamentos e drenagem urbana.
Paralelamente, a administração municipal avançou na expansão da estrutura governamental, com a criação de novas secretarias, cargos comissionados e rearranjos administrativos que resultaram no inchaço da máquina pública. O crescimento da estrutura é apontado como forma de acomodação política de aliados e correligionários, elevando despesas permanentes e comprometendo a eficiência administrativa — movimento que contraria frontalmente o discurso de austeridade, redução do Estado e responsabilidade fiscal defendido pelo próprio prefeito.
O episódio também evidencia um padrão político recorrente. Abílio Brunini já havia deixado o mandato de deputado federal antes do fim para disputar a Prefeitura de Cuiabá. Agora, repete a prática ao anunciar que se afastará do Executivo para impulsionar a candidatura da esposa. Samantha Iris, por sua vez, segue a mesma lógica: não conclui o mandato de vereadora e transforma o cargo atual em trampolim eleitoral para um posto mais alto, mesmo com um desempenho legislativo marcado pela baixa produção, ausência de projetos estruturantes e pouca relevância institucional.
Ao admitir que pretende se licenciar para “rodar o Estado” em campanha, o prefeito não apenas confirma a prioridade eleitoral sobre a gestão pública, como também oficializa o rompimento com compromissos assumidos com o eleitor. Cuiabá, que já enfrenta graves problemas administrativos e urbanos, corre o risco de ficar ainda mais à deriva durante o período eleitoral — agora com a anuência explícita do próprio chefe do Executivo.