A prefeita Flávia Moretti afirmou em entrevista recente que não teria controle sobre o Departamento de Água e Esgoto de Várzea Grande (DAE), atribuindo a condução da autarquia ao vice-prefeito Tião da Zaeli. Dois dias depois, porém, declarou publicamente que solicitou ao presidente do DAE a demissão da esposa do vereador Samir Japonês, que ocupava cargo comissionado na autarquia. A sequência de declarações cria um evidente ruído político: se não exerce comando sobre o órgão, como pode determinar exoneração?
Do ponto de vista institucional, a questão é mais profunda do que o embate político momentâneo. Pela Lei Orgânica Municipal e pelo princípio constitucional da hierarquia administrativa (art. 37 da Constituição Federal), autarquias municipais integram a estrutura indireta do Executivo e estão submetidas à supervisão da chefia do Poder Executivo. Ou seja, a responsabilidade política final sempre recai sobre a prefeita — ainda que haja delegação operacional. Ao negar comando e, em seguida, admitir interferência direta, a prefeita enfraquece sua própria narrativa e abre espaço para questionamentos sobre governabilidade, coerência e transparência na gestão pública.