PROMESSA NO PAPEL

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PROMESSA NO PAPEL

Cadê o Cuiabá Mais Leve? Homem com mais de 200 kg fica há 20 dias acamado enquanto programa contra obesidade não sai do anúncio

Enquanto a Prefeitura de Cuiabá ainda vive de anúncios sobre um programa “pioneiro” de combate à obesidade, a realidade bate à porta da gestão Abilio Brunini (PL) de forma cruel. Há cerca de 20 dias, o mecânico Renato Jesus Pinto, de 55 anos, está acamado em uma oficina desativada no Centro da Capital, com mais de 200 quilos, diagnosticado com trombose e sem conseguir atendimento adequado na rede pública.

O caso expõe o abismo entre o discurso e a prática da atual administração. Em agosto de 2025, Abilio anunciou, ao lado da vereadora Michelly Alencar, secretários e médicos, um programa voltado ao enfrentamento da obesidade em Cuiabá. A promessa era transformar uma emenda parlamentar de R$ 1,5 milhão na compra do medicamento Mounjaro e estruturar um projeto com acompanhamento médico, nutricional, psicológico e físico.

Na época, a gestão vendeu a ideia como um marco: Cuiabá seria a primeira capital brasileira a ofertar gratuitamente o medicamento para pessoas com obesidade. O prefeito chegou a dizer que a obesidade não se resolve apenas com remédio e que seria necessário oferecer acompanhamento completo, com esporte, reeducação alimentar e suporte médico.

Quase um ano depois, a pergunta é inevitável: cadê o programa?

Enquanto o “mega-projeto” não aparece para quem mais precisa, Renato vive deitado em um quarto pequeno, cedido por um amigo, sem conseguir levantar sozinho. Ele depende da solidariedade de vizinhos para comer, tomar café da manhã e receber itens básicos. A situação se agravou com a trombose nas pernas e ferimentos provocados pelo longo período acamado.

Segundo reportagem da TV Centro América, Renato afirma que já procurou atendimento em unidades de saúde de Cuiabá e Várzea Grande, mas não conseguiu acesso ao tratamento necessário. Ele relata que, quando recebe atendimento, o encaminhamento vira um ciclo sem solução: o Samu leva para a UPA, a UPA atende, e depois ele volta para o mesmo local, sem estrutura, sem mobilidade e sem resposta definitiva.

“E fica sempre nisso”, desabafou o mecânico.

A gestão municipal informou que uma equipe irá ao local avaliar a situação de Renato e que ele será acompanhado pela Atenção Primária e pela rede hospitalar. Mas a pergunta que incomoda é outra: por que um homem com obesidade grave, trombose e feridas precisou ficar cerca de 20 dias acamado em uma oficina para a Prefeitura reagir?

O caso escancara a falta de efetividade da política pública anunciada por Abilio. O prefeito fez reunião, posou para anúncio, falou em projeto pioneiro, prometeu dignidade e vendeu a ideia de uma rede preparada para enfrentar a obesidade. Mas, diante de um caso real, urgente e dramático, a estrutura prometida simplesmente não aparece.

Renato é exatamente o tipo de paciente que deveria estar no radar de um programa municipal contra a obesidade. Ele precisa de atendimento especializado, equipe multidisciplinar, transporte adequado, acompanhamento contínuo e uma rede capaz de lidar com pacientes com mobilidade severamente comprometida. Tudo aquilo que foi prometido no discurso da gestão.

Mas, na prática, o que aparece é a solidariedade dos vizinhos ocupando o espaço deixado pelo poder público.

A Prefeitura de Cuiabá precisa explicar onde está o programa anunciado com tanto alarde. Precisa dizer se o Mounjaro foi comprado, quantas pessoas foram atendidas, onde funciona a equipe multidisciplinar, quais unidades estão preparadas e por que casos graves como o de Renato continuam sem resposta adequada.

Porque, enquanto a propaganda fala em “Cuiabá Mais Leve”, a realidade mostra um homem pesado demais para a rede pública enxergar, mas não pesado o suficiente para mover a gestão antes da repercussão.

O caso de Renato não é apenas uma história de abandono individual. É um retrato da distância entre o marketing político e a saúde pública. Em Cuiabá, a obesidade virou promessa de palanque, mas, para quem está acamado e sem atendimento, a promessa ainda não virou cuidado.