O prefeito de Cuiabá, Abilio Brunini (PL), faz propaganda da renovação da frota de ônibus da Capital. A divulgação, no entanto, expõe uma contradição recorrente da atual gestão: quando o assunto é problema, a culpa é sempre do ex-prefeito Emanuel Pinheiro (MDB); quando a pauta rende imagem positiva, a herança da administração anterior vira conquista dele.
A própria Prefeitura divulgou que Cuiabá alcançou o segundo lugar nacional entre as capitais com a frota de ônibus mais nova do país. Segundo a gestão municipal, a idade média dos veículos é de 3,5 anos.
O que Abilio não destaca na propaganda é que a modernização da frota não nasceu agora. O avanço é resultado do contrato de concessão do transporte coletivo assinado ainda na gestão Emanuel Pinheiro, em dezembro de 2019, após quase 20 anos sem uma nova licitação do setor. Foi esse contrato que estabeleceu exigências para renovação dos ônibus, redução da idade média dos veículos e climatização progressiva da frota.
Ou seja, a atual gestão colhe politicamente uma política pública estruturada antes de Abilio chegar ao Palácio Alencastro. A lógica é a mesma vista em outras obras e projetos: o Centro Médico Infantil, iniciado antes da atual administração, e o Terminal do CPA, que já deveria estar pronto, passaram a ser tratados conforme a conveniência do discurso. Se há atraso, falha ou cobrança, a responsabilidade é jogada no colo da gestão passada. Se há inauguração, visita técnica ou vídeo nas redes sociais, a obra vira vitrine da atual administração.
No caso dos ônibus, a população tem direito à melhoria no transporte, mas também tem direito à verdade sobre a origem das ações. A frota moderna que Abilio exibe hoje é fruto de uma concessão feita no passado, com obrigações contratuais assumidas pelas empresas e acompanhadas pelo Município. Transformar isso em peça de autopromoção sem reconhecer o histórico é, no mínimo, uma tentativa de apagar a memória administrativa de Cuiabá.
No fim, a pergunta que fica é simples: se tudo que dá errado é herança de Emanuel, por que tudo que dá certo vira obra de Abilio?