Secretaria de Cultura de MT vira trampolim político alimentado por milhões em emendas parlamentares sem planejamento técnico

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Secretaria de Cultura de MT vira trampolim político alimentado por milhões em emendas parlamentares sem planejamento técnico

Historicamente relegada a um papel secundário dentro da administração estadual, a Secretaria de Cultura, Esporte e Lazer de Mato Grosso tornou-se, nos dois mandatos do governador Mauro Mendes, um dos principais centros de articulação política no Estado. Impulsionada por uma movimentação milionária de emendas parlamentares estaduais, a pasta ganhou protagonismo — mas não pela execução de políticas públicas estruturantes, e sim por seu papel como trampolim eleitoral para a Assembleia Legislativa.

Nos últimos seis anos e três meses, a secretaria deixou de ser periférica e passou a ser um dos principais canais de distribuição de recursos, sem, no entanto, contar com um plano de governo consistente nas áreas da cultura e do esporte. A destinação das emendas não seguiu critérios técnicos, nem buscou equilíbrio no fomento aos diversos segmentos culturais e esportivos do Estado. Ao contrário, o foco foi atender aos interesses dos deputados estaduais e, sobretudo, aos projetos pessoais dos secretários que ocuparam a cadeira.

A lista de nomes que fizeram da pasta uma plataforma política é extensa. O ex-secretário Allan Kardec, o ex-secretário Beto Dois a Um e o atual titular da pasta, o empresário do ramo de entretenimento e judoca David Moura, trilham — ou já trilharam — o mesmo caminho: da secretaria ao projeto de candidatura a deputado estadual. Todos usaram o cargo como vitrine política, amparados pelo volume de recursos movimentados, muitas vezes com baixa ou nenhuma transparência.

Além deles, o ex-secretário Jeferson Neves Alencar, hoje no secretariado municipal de Cuiabá, também aparece como possível nome para 2026 — ou ele próprio, ou sua esposa, a vereadora Michele Alencar, podem disputar uma vaga na Assembleia Legislativa.

Grande parte das emendas foi destinada a institutos e associações culturais e esportivas, muitas delas com atuação questionável e estrutura precária. A semelhança com o modelo que causou a Operação Suserano — deflagrada na Secretaria de Agricultura Familiar e que revelou o suposto desvio de R$ 20 milhões em emendas — acende um alerta: o modus operandi pode estar se repetindo em outras pastas, especialmente na Cultura.

A falta de critérios e a evidente instrumentalização política da secretaria contrastam com a necessidade real de políticas públicas sérias, estruturadas e duradouras para o setor. A expectativa é que, em 2025, ano pré-eleitoral, operações policiais aumentem em todo o país. E Mato Grosso não está fora do radar: o próprio Supremo Tribunal Federal, por meio do ministro Flávio Dino, já deflagrou uma cruzada nacional contra entidades fantasmas que movimentam milhões em recursos públicos com fachada institucional.

O debate que se impõe é sobre o uso das secretarias como extensão dos gabinetes parlamentares — e não como instrumentos de transformação social. Sem planejamento, critério ou fiscalização, a cultura e o esporte viram moeda. E o contribuinte, mais uma vez, é quem paga o preço.