A disputa antecipada pelo Governo de Mato Grosso ganhou um capítulo que chamou atenção dos analistas políticos: voltou a circular, agora em veículo nacional e com ampla repercussão na imprensa local, uma nota afirmando que “o PL decidiu apoiar o vice-governador Otaviano Pivetta para o governo em 2026”. O conteúdo, por si só, já seria impactante. Se fosse verdadeiro, significaria tirar automaticamente o senador Wellington Fagundes — filiado ao PL e igualmente pré-candidato — do páreo. Ou seja: é uma nota que beneficia exclusivamente Pivetta e, ao mesmo tempo, descarta Wellington, seu principal concorrente dentro do próprio campo político.
Mas há um detalhe ainda mais relevante: essa nota é requentada. Ela já havia surgido alguns dias atrás, antes da ruptura pública entre o governador Mauro Mendes e o deputado federal Eduardo Bolsonaro. Desde então, Eduardo declarou que vai trabalhar apenas por uma candidatura do PL ao governo e que não apoiará nomes de fora do partido — justamente o caso de Pivetta. Ou seja, a própria realidade política atual já desmentiu aquela narrativa inicial. Ainda assim, a nota ressurgiu agora, com roupagem nova, como se fosse informação inédita.
A sequência dos fatos segue um roteiro extremamente conhecido pelos cientistas políticos: primeiro, a nota “requentada” reaparece em um meio nacional — onde soa mais crível do que se publicada apenas em Mato Grosso; depois, a imprensa local amplifica; logo após, surgem pesquisas metodologicamente frágeis que tentam validar a narrativa; seguem-se depoimentos de pouca densidade política e “apoios” de impacto limitado; e, por fim, o ciclo se completa com celebrações nas redes sociais, como se houvesse uma onda espontânea em curso.
A suposta pesquisa que poderá acompanhar essa nova rodada de divulgação surgirá justamente no momento em que a prisão de Jair Bolsonaro recoloca Wellington Fagundes em primeiro plano, devido à sua defesa ostensiva do ex-presidente, e empurra a tentativa de viabilização da candidatura de Pivetta para o último plano. Trata-se, portanto, de uma manobra precipitada — uma tentativa de reassumir o protagonismo num momento em que o debate político estadual e nacional será dominado pelo tema da prisão de Bolsonaro. É de se esperar, portanto, que novas pesquisas “redentoras” das ambições de Pivetta apareçam com cada vez mais frequência — e, paradoxalmente, com cada vez menos credibilidade.
Esse conjunto, observado em cadeia, sugere — não afirma — que simpatizantes, articuladores e pessoas que trabalham informalmente na pré-candidatura de Pivetta podem estar empenhados em construir uma percepção artificial de crescimento. Do ponto de vista jurídico, é essencial esclarecer: não há qualquer elemento que permita atribuir diretamente ao vice-governador Pivetta a autoria ou o comando dessas ações. A análise se restringe ao comportamento público dos fatos, ao seu impacto político e ao benefício evidente que produzem para um lado da disputa.
Para o eleitor atento, o roteiro é familiar: notas requentadas, pesquisas oportunistas, apoios artificiais e tentativas de fabricar uma onda de cima para baixo. Na prática, trata-se de uma operação que tenta transformar teatro em fato — mas, como a história política mostra repetidamente, a sociedade mato-grossense identifica com facilidade quando a realidade não acompanha o script.