A chegada da NASCAR Brasil ao Parque Novo Mato Grosso reacende uma pergunta que acompanha o empreendimento desde seu anúncio: afinal, para quem foi construído esse complexo bilionário?
A competição ocorre entre 29 de julho e 1º de agosto no Autódromo Internacional de Mato Grosso, reunindo também provas da Copa Truck, Copa Hyundai HB20 e Turismo 1.4. Os ingressos foram anunciados a partir de R$ 30, enquanto o pacote para quatro pessoas custava R$ 210. Crianças de 5 a 12 anos tinham entrada gratuita nas arquibancadas.
O valor inicial pode parecer acessível isoladamente, mas não representa todo o custo enfrentado por uma família. Transporte até um complexo afastado da região central, alimentação e outras despesas tornam a participação mais difícil para quem vive com orçamento apertado. Setores diferenciados, como paddock e áreas de visitação, também reforçam a separação entre a experiência popular e os espaços destinados a quem pode pagar mais.
O contraste fica ainda maior diante do dinheiro público destinado ao empreendimento. O Parque Novo Mato Grosso foi anunciado em 2021 com previsão inicial de investimento de aproximadamente R$ 150 milhões e conclusão da primeira etapa em dois anos.
Levantamento publicado em 2026, baseado em dados do Portal da Transparência, aponta que os contratos relacionados ao parque já ultrapassaram R$ 1,1 bilhão. Apesar disso, o espaço ainda não funcionava regularmente como parque público e permanecia concentrado na realização de grandes eventos.
Também pesa sobre o projeto uma investigação do Tribunal de Contas de Mato Grosso envolvendo três contratos do autódromo que somam R$ 208,1 milhões. A apuração analisa preços, aditivos, andamento das obras, desclassificação de concorrente e possíveis conflitos de interesse. O Tribunal ainda não concluiu que houve irregularidade ou sobrepreço.
A NASCAR pode colocar Cuiabá no calendário nacional do automobilismo, mas também evidencia o risco de um equipamento financiado por toda a população ser desfrutado principalmente em eventos pagos e experiências voltadas aos setores de maior renda.
O problema não é o trabalhador estar formalmente impedido de entrar. É precisar pagar novamente para usufruir de uma estrutura bilionária construída com recursos públicos, enquanto serviços básicos e bairros periféricos continuam disputando espaço no orçamento estadual.
Se o Parque Novo Mato Grosso pretende ser verdadeiramente público, precisa oferecer acesso permanente, transporte adequado, áreas gratuitas e programação popular — e não aparecer para a maioria da população apenas quando os portões são abertos para eventos comerciais.