Com muita certeza, Maurício Tonhá, o Maurição da Estância Bahia, foi daqueles bolsonaristas que antes atacava a Rede Globo com fervor, chamando-a de “Globolixo” e fazendo campanha para que ninguém a assistisse, sob a acusação de ser uma emissora “comunista”. O mesmo empresário, ex-prefeito de Água Boa e símbolo do agronegócio mato-grossense, aparece agora em vídeo ao lado de Pedro Bial — ícone do jornalismo da Globo — em uma cena que escancara a hipocrisia de quem demoniza a imprensa quando lhe convém, mas logo se rende quando precisa vender a imagem do agronegócio como potência nacional .
Na gravação, entre piadas sobre picanha e insinuações de que o atual governo teria prometido e não entregado, Maurição esquece que sua própria fortuna vem justamente da venda da carne bovina pelo maior preço. Dono da Estância Bahia, ele ergueu seu império a partir de leilões que nunca se preocuparam com quem dá menos, mas sim com quem paga mais. A crítica ao preço da picanha, nesse contexto, soa como um deboche travestido de populismo: quem vive de transformar o corte nobre em espetáculo de ostentação não tem autoridade moral para cobrar barateamento em nome do povo.
Do ponto de vista acadêmico e político, o caso revela a contradição estrutural da velha elite rural brasileira: conservadora no discurso, patrimonialista na prática e cínica na relação com os símbolos nacionais. O mesmo Maurição que um dia jurava defender a pátria, Deus e a liberdade contra os “comunistas da Globo”, agora se apresenta sorridente ao lado de um deles. A filosofia diria que esse tipo de contradição não é acidente, mas método: a verdade não importa, o que importa é o lucro e o poder. Maurício Tonhá, portanto, encarna a caricatura de uma elite que se diz patriota, mas cujo único altar é o do leilão, onde a bandeira verde e amarela só tremula quando o martelo bate em nome do maior lance.