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O governador Mauro Mendes, em mais uma solenidade de autoelogio, anunciou que seu governo investiu mais de R$ 400 milhões em cultura e esporte nos últimos anos. Uma cifra pomposa, que certamente enche de orgulho o marketing oficial. Mas, como Gestor Publico e jornalista , cabe aqui a pergunta incômoda: onde estão esses recursos? O que ficou de legado concreto para o povo mato-grossense, além de discursos e cerimônias repletas de autoridades e tapinhas nas costas?
Não existe, em Mato Grosso, uma política de Estado consistente para a cultura e para o esporte. O que se vê é uma gastança fragmentada, pulverizada em emendas parlamentares que viram balcão de negócios, cada deputado estadual com seu instituto, ONG ou associação. É a lógica do clientelismo, não da política pública. Enquanto isso, o governo terceiriza ações e repete a mesma marca em todos os lugares: “Ser Família”, a grife da primeira-dama, Virginia Mendes, que, mais que um programa social, virou carimbo para promoção pessoal. Resultado prático? Quase nenhum. Mato Grosso segue campeão em feminicídios, exclusão social e falta de oportunidades para jovens.
A patifaria é tamanha que, nos bastidores, ouvem-se denúncias de investimentos travestidos de políticas sociais que terminam irrigando rádios, TVs, comércios e mansões em condomínios de luxo. O Estado financia o patrimônio de particulares enquanto artistas, atletas e comunidades seguem à míngua. Se os R$ 400 milhões citados pelo governador de fato existiram, é plausível supor que grande parte tenha sido desperdiçada — ou, pior, desviada. Uma farra que arrepia qualquer coluna vertebral séria ao observar a possível promiscuidade entre dinheiro público e interesses privados.
O terceiro setor, tão usado como biombo dessa engrenagem, deveria ter a coragem de pedir uma CPI da Cultura e do Esporte. Uma investigação que mostre para onde realmente foi esse dinheiro, quem são os institutos e associações privilegiados e por que tantos deles aparecem, vez ou outra, nas páginas policiais do Estado. A cada nova manchete, fica claro que o problema não é apenas de gestão: é de projeto de poder. E o silêncio institucional só fortalece a suspeita de que estamos diante de um sistema pensado para beneficiar poucos e enganar muitos.
É hora de virar o jogo. Se houve enriquecimento ilícito de deputados, autoridades ou gestores, que seja investigado e punido exemplarmente. Se não houve, que a transparência seja a regra e não a exceção. Porque, até aqui, o que se vê é a cultura transformada em moeda de troca, o esporte em vitrine para discursos vazios e a sociedade civil em refém de um Estado que gasta muito para entregar pouco. Mato Grosso não precisa de cifras de propaganda: precisa de política pública de verdade.
Popó Pinheiro
Jornalista e Gestor Publico