Um levantamento das transferências voluntárias do governo de Mato Grosso aos municípios revelou um crescimento atípico na liberação de convênios em pleno ano eleitoral. No período de janeiro a agosto, o montante assinado com as prefeituras saltou de R$ 134,8 milhões em 2025 para R$ 1,338 bilhão em 2026 — um aumento de 892%, quase dez vezes mais.
O dado mais expressivo está concentrado em julho de 2026, quando foram assinados R$ 581,3 milhões em convênios, montante mais de quatro vezes superior ao total liberado de janeiro a agosto do ano anterior.
A análise trimestral reforça a anomalia. No primeiro trimestre, a variação foi de +2.958,8% em relação ao primeiro trimestre de 2025; no segundo, +1.017,6%; no terceiro, +668,5%. Em todas as frentes, a liberação de recursos foi multiplicada em proporções que não encontram justificativa técnica.
Um padrão que se repete
O histórico de 2018 a 2026 revela que o fenômeno não é pontual. Os picos de liberação de convênios coincidem sistematicamente com os anos de disputa de poder. Em 2022, ano da reeleição do governador Mauro Mendes, os convênios atingiram o recorde histórico de R$ 1.671,0 milhão, o dobro do registrado no ano anterior. Em 2026, ano da sucessão estadual, com candidatura do Vice-governador Pivetta, apoiado pelo Mauro Mendes, o orçamento já caminha no mesmo ritmo acelerado — quase o dobro do valor integral de 2025 em apenas oito meses.
Nos anos pós-eleitorais, o ritmo desacelera. Em 2019, as liberações de convênio estavam em R$ 81,2 milhões. Em 2023, caíram de R$ 1.671,0 para R$ 836,6 milhões, bem abaixo do pico do ano anterior.
O que isso significa
Especialistas apontam que a concentração de liberações em anos eleitorais compromete a isonomia do pleito, desvirtua a finalidade do orçamento público e pode funcionar como instrumento de aliciamento político o que poderia explicar o apoio massivo de prefeitos divulgado recentemente.
Além disso, a explosão de convênios em ano eleitoral, concentrada em julho, com picos casados com o calendário eleitoral, pode se enquadrar nos elementos do abuso de poder econômico, podendo resultar na inelegibilidade do candidato.
A crítica ganha ainda mais peso diante do fato de o atual governador ter ocupado o cargo de vice-governador por 7 anos e meio, usando a estrutura do Estado — inclusive os convênios — como ferramenta de articulação com as municipalidades.
Os dados, computados até 20 de agosto de 2026, indicam que o montante tende a crescer ainda mais até o fechamento do exercício, o que pode superar o recorde histórico registrado em 2022.


