A biografia política de José Aparecido dos Santos, o Cidinho, revela menos sobre lealdade pessoal e mais sobre a astúcia em identificar onde o poder se concentra. Sua história começa em Nova Marilândia, pequeno município criado sob a articulação do ex-deputado Jayme Muraro, de quem Cidinho foi assessor. De colaborador de bastidor, tornou-se prefeito, abrindo caminho para uma carreira que se moldaria sempre em função de figuras mais fortes. O jovem político, à época, era apenas mais um entre os cabos eleitorais do PFL de Júlio Campos, Jayme Campos e Jonas Pinheiro.
O divisor de águas foi a ascensão de Blairo Maggi ao governo de Mato Grosso. O “rei da soja” ofereceu a Cidinho não apenas proximidade, mas legitimidade e trânsito em redes de poder antes inalcançáveis. Foi sob esse guarda-chuva que Cidinho se consolidou como ator relevante. Mas, ao contrário da narrativa de amizade, o vínculo estava alicerçado na utilidade política: era a força do CPF de Maggi, enquanto governante e magnata, que interessava ao rapaz de Nova Marilândia, não a pessoalidade do vínculo humano. O episódio mais simbólico dessa ruptura foi quando Cidinho se negou a votar no candidato à presidência apoiado por Blairo e, em vez disso, alinhou-se ao candidato que tinham Mauro Mendes e Tarcísio de Freitas como padrinhos políticos. Blairo ainda não havia se dado conta, mas para Cidinho ele já era passado.
O tempo provou isso. Quando Mauro Mendes assumiu a dianteira política em Mato Grosso, oferecendo a Cidinho a coordenação de sua campanha em 2022 e, sobretudo, acesso a um novo “CNPJ do poder”, a escolha foi imediata: Blairo ficou de lado. O mesmo padrão se repetiu na esfera nacional, quando o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, passou a integrar o rol de novos “reis” a quem Cidinho buscava se associar — agora o “rei da soja” já não era central, havia o “rei do ovo” e outros polos de influência.
O episódio mais revelador foi a forma como, sob comando da campanha de Mauro Mendes, Cidinho não hesitou em tentar atacar a honra, a moral e a família do então prefeito Emanuel Pinheiro, além de debochar e ridicularizar adversários. Essa conduta mostra um traço recorrente: o de alguém sem escrúpulos, disposto até a desempenhar o papel de animador de governador apenas para subir mais um degrau na escada social.
A trajetória permite uma leitura sociopolítica clara: Cidinho nunca foi amigo de Blairo Maggi, mas amigo do poder que Blairo exercia. A amizade pessoal, no campo da política, é frequentemente uma cortina que encobre o cálculo frio do acesso e da conveniência. Hoje, com Mendes e Tarcísio no centro da cena, são eles os novos “Blairos” — referências de poder momentâneo a quem Cidinho dedica lealdade circunstancial.
Até mesmo os grandes, como Blairo Maggi, sofrem decepções ao descobrir que, no tabuleiro político, a amizade não resiste quando não se traduz em poder. O que se preserva, no caso de Cidinho, é a coerência de sua trajetória: a de sempre estar ao lado não de pessoas, mas das estruturas que controlam o poder e abrem caminhos de ascensão.