A licitação de R$ 142 milhões para parte do autódromo do Parque Novo Mato Grosso — apelidado de “Parque dos Bilionários” — revelou mais que um simples embate burocrático entre empresas. O que se abriu, na verdade, foi um verdadeiro festival de coincidências empresariais, familiares e administrativas que colocou a opinião pública em estado de alerta e suspeita. A empresa MT Sul Construções Ltda., declarada vencedora da concorrência, é uma velha conhecida das obras públicas em Mato Grosso — e, curiosamente, envolta em uma teia de relações com figuras centrais do governo e da estatal MT Par, que conduziu a licitação.
O caso ganhou contornos ainda mais nebulosos quando veio à tona que a proposta da MT Sul não era a mais barata — ficou em R$ 142 milhões, contra R$ 139 milhões ofertados pelo consórcio Engetal/Engesec, que foi desclassificado sob a justificativa de “carimbos ilegíveis” nos documentos. O problema: a MT Par, responsável por essa decisão, é presidida por Werner Santos, irmão de Cidinho Santos — ex-suplente de senador, diretor da Nova Rota do Oeste (que administra a BR-163) e figura carimbada no tabuleiro de influências políticas e empresariais do estado. Coincidentemente — mais uma! — a MT Sul adquiriu recentemente a mineradora MID, cuja propriedade anterior era, adivinhe, da família Santos.
Como se não bastasse, a MT Sul é também uma das empreiteiras que mais fatura com contratos da Nova Rota do Oeste, cuja direção está sob o comando do próprio Cidinho. Assim, temos um irmão na estatal que licita e contrata, o outro na empresa pública que licita e contrata também , a empreiteira vencedora que comprou a mineradora da família, e um projeto milionário sendo executado num parque criticado por sua exclusividade social. A população assiste a tudo isso entre perplexa e cansada — se não fosse trágico, pareceria roteiro de sitcom político.
Cidinho, que já foi coordenador de campanha de Mauro Mendes, suplente de senador e articulador da estadualização da BR-163, volta ao centro das discussões. Sem fazer acusações, mas com base nos fatos e documentos públicos, o episódio lança luz sobre as zonas cinzentas onde o público e o privado se encontram — ou se confundem. O que está em jogo, mais do que uma obra, é a confiança do cidadão no bom uso do dinheiro público. Como dizem nos bastidores: em Mato Grosso, o problema nunca é o carimbo ilegível. É quem carimba.