Abilio associa eleitores de Lula a criminosos, mas é filiado a partido comandado por condenado no Mensalão

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Abilio associa eleitores de Lula a criminosos, mas é filiado a partido comandado por condenado no Mensalão

O prefeito de Cuiabá, Abilio Brunini (PL), associou eleitores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) a presidiários, integrantes de facções criminosas, dependentes químicos e pessoas que vivem em um “mundo totalmente perdido”. A declaração generaliza milhões de brasileiros pela escolha feita nas urnas e chama atenção também por uma contradição dentro do próprio partido do prefeito: o presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, já esteve preso e cumpriu pena após ser condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) por corrupção passiva e lavagem de dinheiro no processo do Mensalão.

Ao tentar explicar o desempenho eleitoral de Lula, Abilio afirmou que o petista aparece bem colocado nas pesquisas porque o Brasil teria “muito presidiário de tornozeleira”. Em seguida, apontou quem, na avaliação dele, formaria a principal base eleitoral do presidente.

“Quais são os principais eleitores do Lula? Presidiário, faccionado, domado, dependente químico, pessoas num mundo totalmente perdido, acabam escolhendo estar do lado do Lula”, declarou.

A fala coloca em uma mesma classificação pessoas envolvidas com crimes, cidadãos em situação de dependência química e milhões de eleitores que simplesmente possuem uma posição política diferente da defendida pelo prefeito.

Abilio também citou pessoas que defendem o aborto e fez referência à “promiscuidade” ao definir quem, segundo ele, estaria ao lado de Lula, ampliando a crítica para questões políticas, sociais e comportamentais.

A generalização ganha peso por partir do prefeito de uma capital. Abilio não ocupa apenas uma posição partidária dentro do PL: como chefe do Executivo municipal, administra uma cidade formada por eleitores de Lula, de candidatos de direita, de centro e de diferentes correntes políticas. O poder público deve atuar de forma impessoal, sem distinguir cidadãos pela preferência manifestada nas urnas.

O tamanho do grupo atingido pelas declarações pode ser dimensionado pela eleição de 2022. Lula recebeu 60.345.999 votos no segundo turno, o equivalente a 50,9% dos votos válidos. Foram mais de 60 milhões de brasileiros que escolheram o petista para a Presidência da República.

Nesse universo há trabalhadores, empresários, servidores públicos, aposentados, profissionais liberais, estudantes e pessoas das mais diferentes condições econômicas e sociais. Reduzir esse contingente a presos, faccionados ou dependentes químicos transforma uma divergência política em ataque pessoal contra o eleitor.

PRESIDENTE DO PL JÁ CUMPRIU PENA

A fala de Abilio fica ainda mais contraditória quando observada a própria estrutura partidária à qual ele pertence.

O PL é presidido nacionalmente por Valdemar Costa Neto, que foi condenado pelo STF a 7 anos e 10 meses de prisão, em regime inicialmente semiaberto, pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro no processo do Mensalão. Ele começou a cumprir a pena em 5 de dezembro de 2013 e passou ao regime aberto em 2014. Em maio de 2016, o STF concedeu indulto e extinguiu sua punibilidade.

Valdemar continua exercendo atualmente a presidência nacional do PL, partido de Abilio e também do candidato à Presidência Flávio Bolsonaro. Nesta segunda-feira (7), por exemplo, participou de ato político na Avenida Paulista na condição de presidente da legenda.

O histórico de Valdemar, evidentemente, não transforma os eleitores do PL em criminosos. Um eleitor que vota em candidatos do partido não pode ser responsabilizado pela condenação criminal de seu presidente nacional.

É justamente aí que aparece a fragilidade da lógica usada por Abilio. Se a presença de pessoas que cometeram crimes fosse suficiente para desqualificar todo um eleitorado, o mesmo raciocínio poderia ser aplicado contra o próprio PL devido ao passado criminal de Valdemar Costa Neto.

Seria uma generalização tão inadequada quanto afirmar que milhões de eleitores de Lula são presidiários ou faccionados.

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