“Ser Família” não é programa social — é roteiro de conteúdo para o Instagram da primeira-dama Virgínia Mendes.

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“Ser Família” não é programa social — é roteiro de conteúdo para o Instagram da primeira-dama Virgínia Mendes.

O Balanço Geral do Estado de Mato Grosso de 2024 traz mais do que números: traz um diagnóstico silencioso, mas devastador, de um governo que escolheu desprezar as políticas sociais. Com um orçamento executado de mais de R$ 39 bilhões, apenas 0,75% foi destinado à Assistência Social. Um valor ínfimo, inferior até mesmo ao gasto com publicidade institucional. Essa escolha revela prioridades — e elas não estão voltadas ao povo mais vulnerável. Por trás da retórica oficial, o que se vê é o abandono do social e a ausência de um projeto verdadeiro para mitigar a pobreza, a fome, o desemprego e a desigualdade que corroem as estruturas da sociedade mato-grossense.

Não se pode falar de política social séria quando o carro-chefe do governo — o chamado “Ser Família” — tornou-se, na prática, uma vitrine de autopromoção nas redes sociais da primeira-dama Virgínia Mendes. Um programa que deveria alcançar os invisíveis e os esquecidos converteu-se em roteiro de conteúdo para Instagram, onde o foco é o look do dia, os acessórios de grife, as cenas montadas e o culto à vaidade. A entrega de um iogurte a um morador de rua gravada por câmeras oficiais, cercada por elogios clichês e curtidas falsas, ilustra o quanto a ação social em Mato Grosso se tornou espetáculo. Faltou empatia, sobrou performance.

É impossível dissociar esse cenário do desmonte social que atravessa o estado. Os indicadores de educação divulgados pelo INEP colocam Mato Grosso entre os últimos do país em desempenho escolar. A violência cresce, o feminicídio atinge índices alarmantes, o crime organizado se espalha pelos municípios, e a fila dos ossinhos segue como símbolo cruel da fome em pleno Centro-Oeste. Enquanto isso, o “Ser Família” exibe sua maquiagem institucional, enquanto programas estruturantes — como o Minha Casa Minha Vida, as cestas básicas, os benefícios às populações indígenas e pessoas com deficiência — seguem majoritariamente bancados pelo governo federal, com o estado apenas carimbando a marca.

É hora de dizer com todas as letras: Mato Grosso nunca teve, sob os dois mandatos de Mauro Mendes, um programa social de verdade. Teve, sim, uma narrativa criada para alimentar o narcisismo de quem ocupa o Palácio Paiaguás. É por isso que “Ser Família” não cabe mais na categoria de política pública. Ele cabe, sim, nas métricas de engajamento das redes sociais da primeira-dama. A comparação com figuras como Madre Teresa de Calcutá , Margareth Thatcher ou Evita Perón não resiste a um minuto de análise — sequer se aproxima da grandeza de mato-grossenses como Terezinha Maggi, Isabel Campos, Dona Yone Campos, Thelma de Oliveira e Lucimar Campos, mulheres que praticaram a política com empatia, humildade e espírito público.

Diante de tudo isso, fica a pergunta que deve ecoar nos gabinetes, nas igrejas, nos sindicatos, nas escolas e nos lares: onde está a alma solidária deste governo? Porque o que se vê é um estado com fome de justiça social, abandonado por um poder que se limita a posar para fotos. Que essa realidade desperte em todos nós a coragem de exigir mais — de não aplaudir espetáculo enquanto falta dignidade. Ser família, afinal, é cuidar, é dividir, é proteger. Não é desfilar.