No jogo bruto da política mato-grossense, Mauro Mendes traçou sua linha de sucessão sem olhar para trás. Jogou no mato velhos aliados, reduziu parlamentares a meros coadjuvantes e apostou todas as suas fichas em um novo operador: José Aparecido dos Santos, o Cidinho. Ex-prefeito de um município emancipado a fórceps, ex-suplente de senador e ex-alvo de operações policiais, Cidinho reaparece no cenário com um título ainda mais valioso — o de melhor amigo do governador. E, com esse posto, vieram também as chaves de dois cofres bilionários: a Nova Rota do Oeste e a MT Par.
Se antes seu talento era contar piadas para Blairo Maggi, hoje Cidinho faz rir o governador Mauro Mendes — e esse dom se converteu em poder e dinheiro. Foi ele quem comandou a campanha de reeleição do governador, atacando sem piedade o prefeito de Cuiabá, Emanuel Pinheiro, e sua esposa Márcia. Com um humor ácido, que mistura deboche e estratégia, Cidinho cimentou sua influência e destronou antigos íntimos do governador, como Mauro Carvalho e sua esposa Mônica. O casal, outrora tratado como família no Palácio Paiaguás, foi descartado sem cerimônia, enquanto Cidinho e sua mulher assumiam seus lugares na corte.
O resultado desse movimento foi uma premiação digna de quem soube jogar as peças certas. A Nova Rota do Oeste, concessão bilionária que administra a BR-163, e a MT Par, que gerencia grandes projetos de infraestrutura no estado, ficaram sob seu controle. Com investimentos projetados na casa dos bilhões até 2026, Cidinho se tornou mais do que um amigo do governador — virou o operador das maiores cifras do governo. Uma ascensão silenciosa, mas de impacto colossal.
Essa aliança não se construiu apenas nos corredores de Cuiabá. Em Brasília, Cidinho também soube se inserir. O ex-ministro da Infraestrutura e atual governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, mantém laços estreitos com ele, o que facilita articulações federais para a gestão Mauro Mendes. Não se sabe se as piadas foram as mesmas, mas a capacidade de fazer o “Rei” sorrir parece ter surtido efeito novamente.
Mauro Mendes, que se vende como técnico e gestor, não esconde sua preferência por Cidinho, um político de métodos antigos, mas de resultados rápidos. Se antes a BR-163 era um problema a ser resolvido, agora virou um dos maiores trunfos do governo. Com dinheiro do BNDES, Mauro costurou a estadualização da rodovia, driblando a verdade ao afirmar que os recursos já existiam. A operação, evidentemente, teve o toque de Cidinho nos bastidores.
Enquanto os bilhões circulam entre pedágios e grandes obras, o governo se redesenha. Mauro Mendes encontrou em Cidinho não apenas um aliado, mas um espelho de sua própria política pragmática e implacável. Os que ficaram para trás terão de se conformar com os papéis de figurantes. O protagonista já está escolhido — e, no Mato Grosso de hoje, quem faz o “Rei” rir sempre leva o reino.