JK entregou uma capital ao país; Mauro Mendes entregou um parque à elite — e o vice chama isso de “visionário”

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JK entregou uma capital ao país; Mauro Mendes entregou um parque à elite — e o vice chama isso de “visionário”

A tentativa do vice-governador Otaviano Pivetta de comparar o Parque Novo Mato Grosso à construção de Brasília, obra monumental do governo Juscelino Kubitschek nos anos 1950, é um salto retórico que desafia qualquer rigor histórico, intelectual ou simbólico. Brasília nasceu como um projeto de Estado, com impacto nacional, articulado para integrar o país, reorganizar a administração federal e interiorizar o desenvolvimento. O Parque Novo Mato Grosso, por sua vez, é uma obra local, financiada integralmente com dinheiro público e entregue à gestão de bilionários do agronegócio, convertendo um patrimônio estatal em vitrine privada — e com acesso restrito à população, como revelam seus eventos fechados, preços proibitivos e o histórico de exclusão social que já se desenha.

Ao invocar Juscelino Kubitschek para justificar o gigantismo do Parque dos Bilionários, Pivetta incorre em uma comparação que beira o absurdo histórico. Enquanto Brasília foi projetada por Lúcio Costa e Oscar Niemeyer como símbolo de modernidade nacional, com planejamento urbano inovador e função institucional, o Parque Novo MT tem se notabilizado por acidentes, improvisações, organização precária e, sobretudo, pela lógica de apartheid social que o acompanha — uma megaestrutura pública que não dialoga com a realidade de Cuiabá e muito menos com as necessidades básicas da população, da saúde ao transporte, passando por infraestrutura urbana crítica. Comparar esses dois universos é, no mínimo, uma demonstração de desconhecimento sobre o que foi o Plano de Metas de JK e, no máximo, uma tentativa política desesperada de transformar um projeto contestado em epopeia.

Pivetta tenta sustentar que Mauro Mendes seria uma espécie de “JK do Cerrado”, alguém guiado por um suposto olhar visionário. Mas o discurso não resiste a quinze segundos de análise séria. O vice-governador, ao minimizar as críticas e sugerir que a obra inaugura uma “nova era”, opta por uma narrativa de bajulação que não encontra respaldo nem na execução, nem nos impactos sociais, nem na transparência do empreendimento. Brasília foi construída para servir ao país. O Parque Novo Mato Grosso, até agora, serve prioritariamente aos já muito ricos. Politicamente, a fala de Pivetta expõe mais sua submissão ao projeto pessoal do governador do que qualquer leitura estratégica do futuro de Mato Grosso — e reforça o abismo entre a propaganda oficial e a realidade vivida pela população.