Ainda somos os mesmos — e vivemos pela democracia

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Ainda somos os mesmos — e vivemos pela democracia

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Nesse último domingo, as ruas do Brasil voltaram a ecoar o grito da resistência. Contra a PEC da blindagem e contra a anistia, lá estavam milhares de vozes de todas as idades, mas entre elas brilhou a presença dos nossos heróis da música. Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque, Paulinho da Viola, Djavan, Ivan Lins, Geraldo Azevedo — homens que já enfrentaram a truculência da ditadura militar, que conheceram o exílio, que cantaram pelas Diretas Já, que se ergueram no impeachment de Collor e, agora, com os cabelos brancos da experiência, voltam a ser faróis para a democracia.

Quase todos beirando os 80 anos, carregam no corpo as marcas do tempo, mas guardam no coração a mesma energia que incendiou gerações. São senhores, sim — mas senhores da história, da poesia, da coragem. Sua presença lembra Elis Regina, que na voz de “Como Nossos Pais” traduziu a dor e a beleza de uma geração que nunca desistiu de acreditar no Brasil. “Ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais” ecoa como profecia e testemunho: a luta é permanente, a democracia é frágil, e cabe a cada geração defendê-la como se fosse a última trincheira.

Eles poderiam estar em casa, guardados “contando vil metal”. Mas não: escolheram as ruas, escolheram o povo, escolheram o Brasil. E ao fazê-lo, mostram que o novo sempre vem — e que o verdadeiro legado de uma vida dedicada à música, à arte e à liberdade não é apenas cantar, mas estar presente quando a pátria pede socorro. Esses gigantes provam que o tempo pode passar, mas a coragem é eterna.

Hoje, diante da ameaça de um Brasil silenciado, eles nos lembram que a democracia não tem idade, que a pátria não é negócio e que a liberdade não se negocia. Nossos heróis seguem cantando, e nós seguimos aprendendo. Que os jovens vejam nesses mestres o espelho de uma coragem que atravessa gerações, e que as ruas permaneçam vivas, porque o Brasil só floresce quando o povo se levanta. Ainda somos os mesmos — mas não estamos sós: somos milhões, e viveremos sempre de mãos dadas com a esperança e a democracia.

Popó Pinheiro
Jornalista e Gestor Publico