Ainda há tempo: indignem-se, deputados, para que a coragem desperte e o povo seja salvo

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“A esperança tem duas filhas lindas: a indignação e a coragem. A indignação nos ensina a não aceitar as coisas como estão; a coragem, a mudá-las.” Essas palavras de Santo Agostinho ecoam como uma advertência e, ao mesmo tempo, como uma convocação urgente. Faltando menos de dois anos para o fim dos mandatos legislativos atuais, não posso calar diante do clamor crescente do povo mato-grossense. O grito das ruas, dos bairros esquecidos, das comunidades ribeirinhas expulsas de seus rios, precisa ser ouvido com a alma. E ele não pede cargos nem emendas: ele pede dignidade.

Estamos diante de um governo que governa para os bilionários, que transforma o que é público em luxo privado. O símbolo mais gritante disso é o Parque Novo Mato Grosso — um condomínio de alto padrão financiado com dinheiro do povo, construído em área privada e apresentado como “avanço”, quando na verdade escancara o apartheid social em que vivemos. E enquanto se ergue esse oásis para poucos, a maioria sofre com esgoto a céu aberto, falta de moradia, ausência de políticas públicas reais.

O povo da Baixada Cuiabana está sendo sufocado. O governador Mauro Mendes retirou o VLT — uma obra que estava quase pronta, moderna, adequada ao século XXI — e colocou em seu lugar o BRT, um modelo ultrapassado que já nasceu obsoleto. No Rio Cuiabá, quer erguer seis pequenas centrais hidrelétricas, expulsando ribeirinhos e matando um rio sagrado. No Morro de Santo Antônio, destruição. No Portão do Inferno, abandono. Na Chapada, garimpo. Na segurança pública, o crime organizado avança. E como se tudo isso não bastasse, os indicadores da educação divulgados pelo INEP na semana passada colocam Mato Grosso entre os últimos lugares em todos os rankings nacionais. Somos também o primeiro estado do país em mortes por feminicídio. Isso não é uma distopia: é o cotidiano do nosso povo.

Mas a esperança, como disse Santo Agostinho, ainda vive. Ela sobrevive nos olhos de quem acredita que os deputados estaduais — muitos dos quais conheço e respeito — ainda podem se levantar em nome do povo. Que podem deixar, mesmo que por um instante, a lógica das emendas, dos cargos, dos favores, e se indignar. Porque só a indignação pode gerar a coragem necessária para romper com esse ciclo de silêncio e submissão.

Deputados, a história não absolve os que se calam diante da injustiça. E o povo de Mato Grosso não suportará mais dois anos de abandono. A coragem não é ausência de medo, mas a decisão de agir apesar dele. Indignem-se, para que a coragem brote com força. Voltem os olhos para os esquecidos, para as comunidades empobrecidas, para os jovens sem perspectiva, para os trabalhadores invisíveis. O povo não precisa de luxo: precisa de justiça, dignidade e respeito.

Ainda há tempo. Ainda é possível se reconectar com o espírito público que um dia os fez entrar na política. Mas é preciso, agora, uma ruptura simbólica e real com o projeto de poder que serve apenas à elite bilionária. Ainda há tempo para salvar nossa Baixada Cuiabana, nosso Rio Cuiabá, nosso transporte público, nosso povo. Ainda há tempo para ouvir o grito das filhas da esperança. Indignem-se, e tenham coragem.

Popó Pinheiro
Jornalista e Gestor Publico