“Acorda, Ministério Público!”

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“Acorda, Ministério Público!”

“Acorda, Ministério Público!”

O episódio da ventania que transformou o Autódromo Internacional de Mato Grosso em um cenário caótico expôs não apenas a fragilidade estrutural do Parque Novo Mato Grosso — o já conhecido parque dos bilionários — mas também a lamentável omissão do Ministério Público estadual. Em vez de fiscalizar aquilo que realmente importa, como a segurança da população em eventos financiados com dinheiro público, o MPE preferiu assumir um papel quase caricatural: agir como auditor de sorteio de ingressos. Uma tarefa burocrática e irrelevante diante da missão constitucional que possui. O Ministério Público virou espectador, quando deveria ser protagonista na proteção da sociedade.

Enquanto o MP se ocupava em checar bilhetes, ignorava o essencial: a segurança de milhares de pessoas. E o que torna essa omissão ainda mais grave é que esta já é a SEGUNDA vez que o Parque Novo Mato Grosso registra um acidente sério provocado por ventania. A primeira ocorreu na chamada corrida da educação, quando brinquedos infláveis foram levantados pelo vento, voaram sobre o espaço e atingiram crianças com violência — uma delas em estado gravíssimo, precisando ser levada para a UTI. Mesmo após esse alerta brutal, nenhuma medida séria foi adotada pelo governo, e nenhuma cobrança relevante veio do Ministério Público. Nem recomendação, nem investigação robusta, nem responsabilização. Nada.

Agora, novamente, o governador Mauro Mendes — incomodado com as críticas sobre a obra bilionária construída com o dinheiro do povo e entregue aos bilionários do agronegócio administrar — correu para montar às pressas um espetáculo para a Stock Car, sem garantir segurança mínima. O resultado foi o caos: tendas arrancadas, visitantes correndo desesperados, carros atingidos e risco real de tragédia maior. Um parque construído com bilhões retirados do bolso do mato-grossense não conseguiu suportar um evento básico, e o Ministério Público, mais uma vez, assistiu tudo calado.

Para tentar mascarar problemas estruturais e dar ao parque uma aparência de grande obra pública, o governador ainda despejou mais dinheiro público para compor uma plateia paga — uma encenação, um cenário montado para defender a própria narrativa. Tudo artificial, tudo cosmético, tudo feito para satisfazer o ego governador, que hoje administram o espaço que deveria ser do povo. Enquanto isso, saúde, educação, infraestrutura e segurança pública seguem abandonadas.

Acorda, Ministério Público. Há quanto tempo a instituição virou as costas para a sociedade mato-grossense? Até quando será instrumento de conveniência política? Mauro Mendes e sua esposa, Virginia Mendes, são especialistas em destruir reputações, controlar narrativas e fazer política com ataques, mas a função do MP é proteger o cidadão — não proteger governantes. O povo precisa de um Ministério Público presente, corajoso e comprometido com a verdade. Não de um fiscal de sorteio. Não de um observador silencioso.

A sociedade não precisa de uma instituição que fecha os olhos para os absurdos do governo estadual enquanto é implacável com prefeituras, muitas vezes para tentar compensar — ou esconder — sua omissão diante do poder do Estado. Os dois últimos procuradores-gerais foram muito aquém da responsabilidade do cargo e ditaram o processo de decadência institucional vivido hoje pelo MPE, marcado por silêncio conveniente, seletividade e parcialidade. E não se pode esquecer o episódio constrangedor de um promotor com histórico funcional conturbado, cheio de problemas e quase sem votos dos colegas ter se tornado desembargador — um fato inédito e sintomático da crise moral e administrativa que assola a instituição.

E deixo claro: não escrevo este artigo para ser inimigo de promotores ou procuradores, nem espero que fiquem com raiva de mim. Muito pelo contrário. Falo porque reconheço a importância gigantesca do Ministério Público na proteção da sociedade, na defesa da ordem jurídica e no combate às injustiças. Quando o Ministério Público falha, quem perde é o povo; quando o Ministério Público se cala, a injustiça toma conta. O que peço — e o que a população espera — é um Ministério Público de verdade: imparcial, justo, firme e independente. Um MP que honre seu papel histórico e sua responsabilidade com cada cidadão mato-grossense.

Popó Pinheiro
Jornalista e Gestor Publico